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Abr 12
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A Festa de Babette

     Com o objectivo de mostrar a relação entre Cinema e Alimentação enquanto fonte histórica e de análise à sociedade, apresento parte da análise ao filme A Festa de Babette que realizei no âmbito do Mestrado em Alimentação – Fontes, Cultura e Sociedade, para a disciplina de Cinema.

 

     Cinema como memória colectiva

     Desde o início da História do Cinema, que se reflectiu sobre a imagem como expressão da realidade e da verdade. Segundo Boleslas Matuszewski, que trabalhou com os Irmãos Lumière, o Cinema não dá a História integral, mas o que ele nos fornece é incontestável e de uma verdade absoluta.   

     Assim, somos levados a atribuir ao Cinema o valor de verdade e ao filme a importância de documento histórico. É possível ao historiador identificar no filme elementos que o ajudam a compreender a sociedade para além das representações operadas pelos grupos dominantes. O filme fala sobre o tempo da sociedade produtora, sobre os valores da época, mas também revela como a sociedade que vê o filme olha para si mesma ou como olha os eventos do passado. O filme permite-nos reflectir sobre os valores que as sociedades transportam.

 

     Cinema e Alimentação

     Cinema e Alimentação são conceitos que vivem em uníssono, porque ambos são fruto da acção e cultura humana, com um mesmo propósito – viver sensações. Quer a experiência gastronómica, quer a cinematográfica, resultam em ricas experiências sinestésicas. Então, o que sentir quando ambas as experiências se unem? Oferecem-nos uma experiência ímpar, de cor, movimento, acção, desejo, aprendizagem, conhecimento e «degustação». Ambas são Arte e Cultura. Sobre cultura e alimento, Ernesto Veiga de Oliveira diz-nos que «é desnecessário acentuar a importância do alimento como factor primordial de cultura», visto que da alimentação, nasce a cultura. Ou seja, através da recolha do alimento e da sua preparação, o Homem foi evoluindo, pois foi a «partir dessas actividades, prolongando a função biológica, que surgiu o Homem como ser cultural». São duas realidades indissociáveis.

 

 

     A Festa de Babette

     A Festa de Babette, obra-prima do realizador dinamarquês Gabriel Axel e inspirado no livro de Karen Blixen - conhecida pelo pseudónimo Isak Dinesen, insere-se no rol de filmes que têm como cerne a comida, sendo mesmo considerada por Steve Zimmerman, o filme que deu início ao género dos filmes sobre alimentação. A Festa de Babette realizada em meados da década de oitenta, do século XX, transita em torno da preparação dos alimentos, da figura do cozinheiro ou do acto de sentar-se à mesa. A comida não é entendida apenas pelo seu carácter nutricional, mas fundamentalmente, inserida numa cultura, rodeada de sociabilidades e imbricadas na História. Ou seja, alimentar-se é um acto nutricional, comer é um acto social, pois constitui atitudes, ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações.

     Somos confrontados com um dos momentos de maior prazer do ser humano, o da comida. É no banquete de Babette que se revela a vida esquecida das personagens, quer no passado ou nos sonhos esquecidos. É no prazer do gosto, do cheiro dos pratos servidos, que quase sentimos o aroma espalhado pelos espectadores, que se descobre que a vida não é linear, que o quotidiano pode ser interrompido a qualquer momento, e revelar não só as obrigações sociais e religiosas de uma existência, como as surpresas do eu adormecido, dos sonhos do que se pretendeu ser e do que nos tornamos.

 

     Estrutura Narrativa (Sequências)

     Segundo Robert McKee, A Festa de Babette insere-se na categoria de «filme artístico».

     A primeira sequência do filme caracteriza-se pela apresentação das duas irmãs, Philippa e Martina, e pelas suas escolhas, de forma a permaneceram com o pai no serviço religioso da Igreja. Termina quando Achille Pappin regressa a Paris, deixando uma das irmãs por quem se apaixonara, Phillipa. A segunda sequência, inicia-se trinta e cinco anos mais tarde. O pastor já falecera e as duas irmãs envelheceram, contudo os ideais religiosos do pastor continuam vivos. Neste ponto surge Babette como empregada das irmãs, o momento em que a história, efectivamente, começa.
     Durante esta sequência vemos a continuidade do trabalho de Babette para as duas irmãs, correspondendo a um tempo real de 14 anos. Ao longo desse tempo, começam a surgir queixas dos membros da Igreja. O primeiro caos acontece quando Babette recebe uma carta de França a contar-lhe que ganhara 10 mil francos na Lotaria. Nesse momento, ao ver que Babette ficara rica, as duas irmãs sentiram medo da sua partida para França.

Babette oferece-se para confeccionar e preparar um jantar francês para os habitantes da aldeia em comemoração do centésimo aniversário do Pastor. Aquando dos preparativos de Babette para a refeição, um novo caos ocorre – o pesadelo de Martina. A irmã sonha que Babette possui poderes demoníacos e que o jantar será o resultado de bruxaria. Este momento vai definir a quarta sequência que apresenta a Festa, propriamente dita e que dá título ao filme.

     A última sequência do filme abre com o temor dos paroquianos perante a comida confeccionada por Babette. Estes combinaram não tecer qualquer comentário face à comida durante o jantar. Contudo, ao longo da degustação eles são atraídos pelo prazer que os alimentos proporcionam.

Consequência desse sentimento é a harmonia e a união dos laços entre Irmãos, anteriormente quebradas. Além disso, a quarta sequência termina com Babette a contar às irmãs que gastara todo o seu prémio na preparação do Jantar, que ela fora uma chef famosa em Paris e que permaneceria com as irmãs em vez de voltar a França.Com esta notícia, os corações de Martina e Phillipa acalmaram-se, terminando assim a história.

 

 

     Fotografia e Música

     As cenas fílmicas são de um profundo poder contemplativo para o qual a qualidade da Fotografia e da Música concorrem. O mundo das irmãs é pintado com uma paleta de tons cinzentos, pretos e branco. Elas vivem num mundo frio e prudente num amontoado de casas pequenas à beira-mar. A ferocidade do clima está sempre presente, com o céu carregado de nuvens, com a tempestade, com o vento a soprar. Essa austeridade é intensamente retratada na cena da preparação dos alimentos, onde as irmãs ensinam Babette, recém-chegada, a confeccionar a refeição tradicional, de peixe seco que deve ser demolhado e do pão de cerveja que se assemelha a umas papas.

     Em contraste, as cenas posteriores do filme, em que Babette, tendo gasto o dinheiro da lotaria nos ingredientes para a refeição, prepara e serve a festa, são de uma incrível sensualidade com cor e textura. O linho da toalha de mesa, decorada com castiçais de prata que reluzem. A comida em si é simplesmente uma maravilha – a codorniz dentro da cesta de massa-folhada, um pedaço de tartaruga bóia na sopa fumegante, a delicadeza da pastelaria, um bolo num ninho de frutas confitadas é regado com licor. No final, há uvas e figos suculentos e maduros que rebentam com a dentada.

     Gabriel Axel conseguiu criar visualmente uma refeição preparada por uma artista. Durante todo o filme somos acompanhados pelo silêncio, pontuado apenas pelo som natural das ondas do mar, do vento, do abrir e fechar das portas, do toque do papel, do tilintar das louças, dos sinos da Igreja, do chá, do vinho a escorrer para as chávenas e copos, dos passos.

     A música é introduzida de duas maneiras especiais: no canto dos hinos da Igreja que nos dão conhecimento dos anseios e crenças profundamente arraigadas da comunidade e no uso de um solo de piano e de um dedilhar de violino que entra em algumas cenas significativas como um sublinhado trémulo e comovente. Assim, acabamos por ser convidados a entrar na realidade dos próprios personagens, em que a nossa respiração se confunde com a deles.

 

 

     O Banquete do ponto de vista filosófico e social

     O banquete representava tudo aquilo contra o qual as irmãs Philippa e Martina haviam lutado durante a vida em nome do pai, ou seja, o prazer, a comensalidade, a sensualidade. O que Philippa e Martina mal sabiam é que a «orgia», no sentido atribuído por Maffesoli, constitui uma via alternativa à religião, à fusão cosmológica com o sagrado.

     Para Nei Lima, A Festa de Babette, representa uma outra via para atingir a pureza, o sagrado e/ou o divino: «À mesa, os dois mundos, o da sobriedade e o da sensualidade. Ou melhor, três: entre os dois, a gratidão, em forma de delícias sensuais que Babette oferecia às irmãs e aos seus convidados. O que Babette parecia querer dizer é que não é preciso recusar os prazeres corporais para que o espírito prossiga justo e correcto. Que esses prazeres podem ir além da simples dissipação dos sentidos para significar gratidão e generosidade. É inicialmente esse gesto (dito na forma de um banquete fausto) o que provoca o malogro das promessas que fizeram de se manterem puros, negando qualquer prazer que viesse do campo discursivo da comida».

     A partir do entendimento do «banquete» como um ritual é que atingimos o «Banquete» como mito no imaginário filosófico e religioso ocidental. Tal como o Banquete de Platão, a função do amor é a de criar a virtude nos homens por meio da beleza. A declaração de Babette, no final do filme, logo após as irmãs questionarem-na quanto ao gasto de todo o prémio da lotaria confirma este juízo. Afinal, Babette não se encontrava mais pobre ou mais rica do que antes, na verdade, havia resgatado parte do amor perdido anos atrás com a arte que Deus lhe dera de fazer magia através da arte gastronómica. Por outras palavras, o banquete é uma declaração estética de amor à vida, à sociabilidade, à sensualidade, à comensalidade, enfim, à comunhão dos homens.

 

 

     O Banquete como Fábula da Cozinha Francesa

     A apresentação do jantar é revelada em cada pormenor. Babette prepara os animais, coloca a mesa, cozinha, peneira, salteia, faz bolos, emprata, corta os queijos, decora.

     O serviço de mesa é à francesa, onde os pratos são servidos um de cada vez. De início, a sopa de tartaruga, acompanhada por um Amontillado, vinho Jerez de cor âmbar, seco e fortificado, de origem espanhola. As entradas foram concluídas com o Blinis Demidoff, acompanhado de um Champagne  Veuve Cliquot de 1860. Dos pratos principais, o destaque vai para o Cailles en sarcophage, ou seja, codornizes assadas no forno, em caixa de massa folhada (vol-au-vent).

     Depois dos pratos principais, os queijos; em seguida, as sobremesas doces (kuglehopf) e as frutas (ananás, uvas, figos, papaias). Após o café, um Cognac superior, un fine champagne. A prima donna do jantar foi o Champagne, mas um vinho tinto servido também mereceu referência especial: um Clos Vougeot 1846. Este vinho é um Bourgogne, originário das vinhas da Côte de Nuits, bastante apreciado na época, e marcava presença nas cartas de vinhos de restaurantes famosos em Paris.

 

 

     Conclusão

     Existem três conceitos muito importantes: a arte, os artistas e a sociedade. Encontramos a arte da música e da gastronomia; os artistas em Babette, Pappin e Philippa; a sociedade no General e no Grupo de discípulos. O General, marca da modernidade e de abertura ao mundo, serve como ponte na sociabilização do gosto e na abertura aos sabores e experiências ao grupo de discípulos.

     Um dos motivos centrais da narrativa foca a discussão sobre a arte na sua relação com o criador e o público. A Gastronomia apresenta-se como arte interactiva, não só enquanto combinação de sentidos (gosto, olfacto, audição, vista e tacto), mas porque nela os actos de criar, fazer e fruir estão intimamente relacionados.

     O Jantar de Babette permitiu-lhe oferecer aos outros o que de melhor ela tinha para dar e como resultado surpreendente conseguiu oferecer a Felicidade e a Renovação.

     Além da moralidade presente ao longo do filme, onde a comida surge como metáfora para a apresentar, podemos sugerir que a escritora do romance que deu origem ao filme, Karen Blixen, através de um erro histórico procurou chamar a atenção para as poucas mulheres ou, mesmo inexistentes, na Chefia das cozinhas no século XIX ou mesmo nos nossos contemporâneos. Na época temporal da narrativa, o Chef do Café Anglais era Adolphe Dugléré e este não permitia de forma alguma a permanência de mulheres na sua Cozinha.

 

     Para finalizar, fica uma das frases finais de Babette - «Um grande grito sai da alma do artista, deêm-me a oportunidade de fazer o meu melhor».

 

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FONTE

Filme A Festa de Babette de Gabriel Axel, 1987

 

BIBLIOGRAFIA

ANTUNES DOS SANTOS, Carlos Roberto - A Alimentação e o seu lugar na História: os tempos da memória gustativa. História: Questões & Debates. Curitiba: Editora UFPR, nº 40, 2005

AUMONT, Jacques; Marie, Michel - A análise do Filme. edições Texto e Grafia, 2010

FERGUSON, Priscilla Parkhurst Babette’s Feast, a Fable for Culinary France. In FERGUSON, Priscilla Parkhurst – Accounting for Taste- The triumph of French Cuisine. Chicago:
University of Chicago Press, 2006.

LIMA, Nei Clara de – A festa de Babette: consagração do corpo e embriaguês da alma. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, 1996. Vol. 2, nº 4

McKEE, Robert – Story, Substance, Structure, Style, and the Principles of Screenwriting. New York: Regan Books, 1997.

ZIMMERMAN, Steve – Food in the movies. North Carolina: McFarland, 2010. 2ª ed

publicado por Graellsia às 15:04 | comentar | favorito
17
Abr 12
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Abr 12

Sabores da Páscoa

A doçura e o mundo mágico do simbolismo marcaram presença no Casino Figueira durante os «Sabores da Páscoa».
 

 

Produtos da nossa doçaria beirã, como o Bolo de Ançã, as Nevadas de Penacova, os Pastéis de Tentúgal, os Ovos Moles, as Sardinhas Doces de
Trancoso, o Folar de Vale de Ílhavo, estiveram presentes no Casino Figueira, oferecendo a oportunidade de os conhecermos melhor, de os degustar, de aprender os seus métodos de confecção, os segredos que estão por trás de cada receita, os quais, por vezes, passam apenas pela temperatura das mãos que a confecciona como acontece no amassar o Bolo de Ançã.

 

A mostra da doçaria esteve a cargo das respectivas Confrarias, a saber, do Bolo de Ançã, da Lampreia, de Tentúgal, dos Ovos Moles, de Trancoso e
das Sainhas.

 

A Gastronomia de uma região, de um país é um tesouro valioso tal como a arte, a etnografia, a língua e a literatura. Faz todo o sentido colocar em relevo esta expressão cultural, enriquecedora da nossa tradição. É uma maneira de promover um património imaterial original, que importa preservar e reabilitar.

 

Preservar receitas é preservar tradições e culturas e, assinale-se, o facto de as Confrarias terem um papel fundamental nessas acções preventivas e
de promoção, bem como cada um de nós.

 

Na Sexta-Feira Santa decorreu o show-cooking sobre a Tradição dos Folares da Páscoa apresentado por mim e pela minha amiga, também pasteleira,
Edite Penas. De mesa enfarinhada e mãos na massa, viajamos pelo mundo rico do folar em Portugal, percorrendo os caminhos e sabores do folar da beira litoral, característico pelos ovos, o folar transmontano, de Vouzela, do Algarve, de Castelo de Vide e do folar de Azeite.  

Foi um privilégio a oportunidade de participar neste evento, onde partilhamos  o saber fazer de cada folar, tradição e simbologia. E, no final, a degustação e harmonização entre todos os participantes.

 

Agradeço à Grã-Mestre Chanceler da Confraria dos Pastéis de Tentúgal, Olga Cavaleiro, por ter acreditado desde o início que seriamos capazes de valorizar a nossa Arte e pelo seu apoio incondicional. Agradeço, igualmente ao Casino Figueira, porque também desde o primeiro momento acreditou e nos apoiou, incansavelmente.  

 

Partilho agora as fotos do show-cooking, À Descoberta do Folar

 

 

 
 
 
 
 
 
publicado por Graellsia às 01:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Abr 12
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Abr 12

Simbologia na Páscoa


    Ernesto Veiga de Oliveira dedica um artigo aos Folares e Ovos da Páscoa em Portugal na sua obra Festividades Cíclicas em Portugal. Seguirei, pois, as palavras do autor quase à letra. Após os meses de Inverno e a longa privação da Quaresma, a Páscoa dá início a uma intensa actividade em termos de preparações culinárias e de intercâmbio. A Páscoa é, pois, uma época característica de presentes cerimoniais, nomeadamente de natureza alimentar, os «folares». A palavra, porém, numa acepção restrita e mais precisa, designa um certo tipo de bola, específica do ciclo pascal.

 

    Como bola de Páscoa, existem, em Portugal, diferentes espécies de «folares»; o mais corrente e difundido é o de bolo em massa seca, doce, e ligada, feito com farinha de trigo, ovos, leite, azeite, banha, açúcar e fermento, e condimentado com canela e ervas aromáticas, geralmente erva-doce, – uma espécie de regueifa ou fogaça -, encimado, conforme o seu tamanho, por um ou vários ovos cozidos inteiros e em certos lugares tingidos, meio incrustados e visíveis sob as tiras de massa que os recobrem. Este tipo de «folares» constitui a regra quase sem excepção em todo o Sul do País, no Algarve e no Alentejo, e é corrente na Estremadura e nos arredores de Lisboa; no Centro do País, é ainda mais frequente nas Beiras, e encontra-se também na região do Douro. Contudo, no Nordeste montanhoso e no planalto de Trás-os-Montes, o «folar» é diferente. A massa leva farinha, ovos, leite, manteiga e azeite e encerra bocados de carne de toda a espécie – vitela, frango, coelho e, sobretudo, porco, presunto e rodelas de salpicão – cozidos dentro da massa.

 

    Conforme as regiões e localidades, os «folares» doces podem apresentar algumas variações e particularidades, no que respeita às suas formas; no Sul, eles são redondos, espessos e maciços, e comem-se no Domingo de Páscoa, ou em certos sítios, na Sexta-feira Santa, na Segunda-feira a seguir à Páscoa, ou mesmo, no final do Ciclo, em Domingo de Pascoela; nos arredores de Lisboa, eles têm uma forma ovalada; em Aveiro, a de um coração; etc. Em certas áreas do Alentejo, porém, como por exemplo na região de Elvas, os «folares» tomam aspectos zoomórficos, para os afilhados há os lagartos, borregos; para as raparigas, as pintainhas, pombas, bezerrinhas, borreguinhas. Em Castelo de Vide os namorados trocam entre si folares em forma de coração. E há os folares que simbolizam a fecundidade da mulher: o ninho, a galinha com os pintainhos em seu redor, a boneca grávida. O ovo está sempre presente – na boca do lagarto, no rabo da galinha, na barriga da boneca.

 

    O lagarto é símbolo do Sol e da Luz, aquele que busca o conhecimento, Deus, a outra vida.

 

    Ernesto Veiga de Oliveira refere-se ainda às regras determinadas em relação aos presentes cerimoniais da Páscoa, os «Folares». Assim, encontramos várias categorias de «Folares», com correspondência a situações sociais independentes,
tais como:

- Os presentes obrigatórios que os padrinhos dão na Páscoa aos seus afilhados;

- O óbulo que se oferece ao padre, em casa, quando da visita pascal, ou «compasso»;

- As ofertas determinadas que têm lugar na Páscoa entre pessoas ligadas por laços de parentesco genérico ou cerimonial.

 

    Pode dizer-se que as celebrações alimentares da Páscoa em Portugal representam a consagração do ovo «símbolo da fecundidade e abundância», nomeadamente no que se refere aos folares do Sul e Centro do País, onde surge incrustado inteiro, como elemento fundamental.

 

    Alguns historiadores sugerem também que muitos dos símbolos ligados à Páscoa, designadamente os ovos coloridos, bem como o coelhinho, são reminiscências da Festa da Primavera em honra de Eostre, a deusa da fertilidade, do Renascimento, da Ressureição, da Luz crescente da Primavera, na mitologia anglo-saxónica, cujo nome parece significar «Deusa da Aurora», festividades essas que foram assimiladas a Pessach.

    Pessach, (do hebraico, ou seja, passagem) também conhecida como Páscoa Judaica, associa-se, segundo o êxodo, à libertação do povo de Israel do Egipto.

 

    Regressando à Páscoa de origem germânica, referimos ainda que, em alemão, ainda hoje se designa a Páscoa por «Ostern» e em inglês «Easter».

Por essas filiações, há quem relacione a divindade Eostre com a Deusa grega Eos, também ela deusa do Amanhecer e ainda com a fenícia Astarte ou a babilónica Ishtar, pelas similitudes no que respeita aos rituais de fertilidade e às festividades do Equinócio da Primavera, sendo comum a Persas,
Romanos, Judeus e Arménios o hábito de trocar presentes de ovos coloridos.

 

    O Cristianismo acabou por absorver esta tradição através da Páscoa e, também por isso mesmo, o ovo aparece aqui ligado à ideia de renovação periódica da natureza. Remete assim ao mesmo mito da criação cíclica, mantendo-se a crença de que comer ovos no Domingo de Páscoa traz saúde e sorte durante todo o resto do ano, funcionando como algo de apotropaico contra as enfermidades.

 

            ... Votos de Páscoa Feliz, Saúde, Sorte e Alegre Renovação!

 

 

 

Fontes

BARATA, Filomena – Ludi Cereales – os ovos da Páscoa. In Portugal Romano – Revista de Arqueologia Romana. Abril, 2012

BARBOFF, Mouette – A Tradição do Pão em Portugal. Edição do Clube do Coleccionador dos Correios, 2011

OLIVEIRA, Ernesto Veiga de – Festividades Cíclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984. 1ª ed.

publicado por Graellsia às 23:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito

World Bread Day 2012

World Bread Day 2012 - 7th edition! Bake loaf of bread on October 16 and blog about it!