Literatura e Gastronomia

Os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis

 

Abria-se (…) a porta da cozinha; vinha de lá um grande rumor de vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clarão avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chama.  (…) Era uma cozinha aldeã, vasta, desafogada; imenso lar, compridos preguiceiros ao longo das paredes, no alto prateleiros pejados de louça nacional, de panelas e alguidades; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada pá de presunto; o amplo forno vomitava lavaredas pela boca escancarada e a cada instante engolia as novas e enormes doses de lenha que lhe ministravam; na masseira fumegava já a farinha ainda não levedada para a fornada da semana, e nela os braços valentes e roliços de duas frescas moças do campo enterravam-se até aos cotovelos; a um sinal destas, outras traziam da lareira grandes panelas de água fervendo, com que acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma peneirava a um canto a farinha para o bolo, outro arrumava o cinzeiro do forno com a vara meia carbonizada; limpava esta a pá grande para a introdução das boroas, e aquela empunhava a pequena pá de ferro de rapar a masseira. No meio desta legião feminina assim atarefada, a patroa da casa, que, como Calipso sobre as ninfas que a serviam, ou, segundo a comparação clássica, como o elegante cipreste sobre as vinhas rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de cada uma e distribuía as tarefas com método e inteligência.

Era esta a tia Ana do Vedor (…). Era ela, enfarinhada, arregaçada, afogueada, com os cabelos escondidos por baixo do lenço vermelho que atava sobre o ocipital, com a voz potente, o olhar fino e os movimentos fáceis, apesar dos cinquenta anos já contados.

À sua vista perspicaz não escapou por muito tempo a presença de Maurício; e logo, que o viu, correu para ele com os braços abertos, exclamando:

- Ai meu rico filho!

- Cautela, cautela, Ana, olha que me enfarinhas! – advertiu Maurício, tentando fugir-lhe.

- E que tem que te enfarinhe? Olh’agora! A farinha é pão, e o pão vem de Deus.

 

(…)

 

Aos preparativos que estou vendo – observou Maurício – há grande fornada para hoje.

- É como vês. E não minguam bocas que a comam. O Senhor nos não falte com estas côdeas.

- E o bolo que não esqueça.

- Eram bons tempos aqueles em que vocês ambos o comiam como se fosse maná! Esquecer! Olh’agora! Não há-de esquecer, não, se Deus quiser, que não falte por aí gente necessitada com quem se reparta. Vá, vá, raparigada! Não se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o serviço não espera! Olh’agora! Deita-me o centeio naquela massa, pasmada, avia-te!

 

(…)

 

- Ó raparigas, então esse pão ainda não está amassado?

E, não lhe sofrendo a impaciência de ânimo a inacção, aproximou-se da masseira e, afastando as moças que lhe cederam o lugar com deferência, remexeu, com o vigor de seus desenvolvidos músculos, a massa, que, sob tao poderoso motor, cedo adquiriu a consistência precisa.

Depois amontoou-a, alisou-a, traçou-lhe em cima com a mão uma cruz e murmurou:

          S. Vicente te acrescente

          S. Mamede te leveda

Cobriu-a com a baeta, e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente:

-Ora aí o têm; agora olham-me por esse forno, que são horas.  

publicado por Graellsia às 12:06 | comentar | favorito