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Out 12

Alimentação na Pintura ao longo da História da Arte

   Desde a Pré-História que o ser humano se sente motivado para a criação de imagens como meio de expressão universal. De facto, os mais antigos desenhos datam de há 40 mil anos, quando o homem começou a transformar a realidade através da imagem mental que dela formava.

   A representação das presas : mamutes, bisontes, cavalos e outros animais, relacionou-se com a transitoriedade da vida nómada, e com a função propiciatória para a caça. Assim, no interior das grutas ou nas superfícies rochosas ao ar livre, esta arte é, antes de mais, uma tomada de posse e surge, segundo René Huyghe, como um meio concedido ao homem para se relacionar com o mundo exterior, bem como atenuar a diferença de natureza que o separa e o temor que experimenta perante ele.  

   As representações naturalistas dos animais reflectiam, assim, as preocupações de subsistência, pois eram o principal alimento.

   A História da Arte nasce, pois, para operar magia com os valores simbólicos da vida quotidiana, surgindo a alimentação e o acto de alimentar-se, como um dos temas principais das primeiras representações pictóricas.

   Apesar das transformações civilizacionais registadas desde a Pré-História aos nossos dias, a par da evolução cognitiva e cultural do homem, a concepção característica da Pré-História, do papel e do significado da arte, vai perpetuar-se e desenvolver-se.

   A imagem apresenta-se como um verdadeiro duplicado do seu original e dota-o com os mesmos poderes que aquele. Vai ser na arte do Antigo Egipto que se vai afirmar esta noção do duplicado mágico equivalente ao seu modelo. Nas pinturas murais dos túmulos, as cenas da vida quotidiana asseguram ao morto o seu uso eterno. Dessa forma, a arte mágica e a arte narrativa conjugam-se perfeitamente.

 

Caça nos pântanos. Tebas, Egipto, c. 1350 a.C
 

   As cenas com representações de oferendas, de caça a aves selvagens e de pesca, passatempo dos reis e dos senhores, as representações de jardins e de animais domésticos familiares na quinta, as representações das actividades quotidianas como o joeiramento de grão na eira, oferecem-nos uma noção da alimentação no Antigo Egipto.

 

Natureza-morta - Fresco de Pompeia, c. 70 d.C
 

   Na Civilização Clássica Greco-Romana, a arte, concebida essencial e conscientemente tendo em vista o «deleite» do espectador, procurou suscitá-lo quer através do realismo, quer da harmonia. A arte Clássica fundada na verdade exacta, revela-nos o quotidiano alimentar através da pintura que decorava os objectos de cerâmica, os frescos, bem como os desenhos nos mosaicos. As naturezas-mortas e as cenas do quotidiano são pequenas obras-primas, com as formas a revelarem um realismo exemplar, as cores e os brilhos, denotando grande atenção e singularidade pelo detalhe.

   Com o advento do Cristianismo, a pintura foi um dos meios encontrados para educar os membros da Igreja que não sabiam ler nem escrever. O Papa Gregório Magno, que viveu em finais do século VI lembrou que a «pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem ler». Assim, os mosaicos e os frescos funcionavam como uma forma de representar, de maneira clara e simples, as passagens bíblicas, omitindo tudo o que pudesse desviar a atenção da finalidade principal. A maioria das obras apresenta elementos místicos como anjos, divindades ou mesmo parábolas bíblicas. Podemos observar nos mosaicos representações animais como o peixe, que possui um papel importante na simbologia cristã.

 

 

O peixe - Tacuinum Sanitatis, Século XV. Paris, BNF
 

   No final da Idade Média, seguindo o modelo litúrgico dos breviários utilizados pelos padres desenvolveu-se durante o século XIV, um livro de devoções privadas – os «Livros de Horas». Estes fornecem-nos um conjunto de imagens surpreendentes, revelando até que ponto, nesta época, os artistas se sentiam atraídos pelo mundo real e a exactidão com que o representavam.

   As numerosas imagens de refeições presentes nos «Livros de Horas» revelam, claramente, os hábitos e os rituais à mesa, nomeadamente aqueles que decorriam nos círculos aristocratas.

   Com a dissipação da época medieval, emergiu um novo espírito alicerçado no renascimento do Humanismo e do Classicismo Antigo. As novas técnicas e uma nova perspectiva do mundo conduziram a uma nova estética, tão clássica como cristã. Emerge a representação de temas do quotidiano, nos quais a alimentação surge como assunto fundamenta, contudo o carácter fortemente religioso permanece.

 

 

Hieronymus Bosch - O Jardim das Delícias (detalhe, painel central), 1504
 

   Hieronymus Bosch (c. 1450-1516) tratou em inúmeras obras o pecado da gula, perante o qual a Igreja lutou firmemente durante a Idade Média. Flores, animais, frutos e legumes são elementos inseparáveis da conotação bíblica. Por exemplo, as naturezas-mortas com uvas, maçãs ou peras representam o sangue de Cristo e o seu amor à Igreja. O pão e o vinho da Última Ceia, ou a lagosta associada às uvas, simbolizam a ressurreição de Cristo.

 

 

Pieter Bruegel, o Velho - O casamento dos camponeses, c.1567
 

   Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569), pintor activo em Antuérpia e Bruxelas, próximo dos humanistas, ocupou-se sobretudo do quotidiano do povo, das suas actividades e dos seus costumes, dos banquetes, numa dinâmica diária.

   Cenas de mercados, talhos, padarias ou, ainda, insumos abundantes para a época, como pães, vinho, ovos e leite, compõem um retrato perfeito da experiência quotidiana.

   Os alimentos conhecem um verdadeiro sucesso a partir do século XVII, contudo a alimentação não constitui ainda o tema principal das obras, mas apresenta-se como elemento fulcral para a totalidade do tema. A alimentação é o acompanhamento perfeito para as cenas quotidianas, sendo a sua presença, envolta num profundo simbolismo.

 

Caravaggio - A Ceia de Emaús, c. 1601
 

   A pintura traduz mais do que uma atmosfera, uma emoção, sendo que as naturezas-mortas não estão limitadas apenas às reproduções de alguns pratos sobre a mesa. As naturezas-mortas, tal como na arte Clássica, transformam-se em verdadeiras composições através das pinceladas de Caravaggio, Zurbarán, Velázquez, ou Cotán.

 

Josefa d'Óbidos - Cesta com cerejas, queijos e barros, c. 1670-80
 

   Josefa de Óbidos (1630-1684), pintora excepcional do barroco português, pintou inúmeras naturezas-mortas, valorizando o doce. É impossível desligarmos a representação dos alimentos do simbolismo religioso presente na sua pintura.

   Durante o século XVIII, Jean-Siméon Chardin pintou, igualmente, numerosas naturezas-mortas, valorizando as sensações, de forma a recuperar toda a dimensão sensual dos alimentos, as suas obras são verdadeiramente degustadas, pelos olhos. 

 

Chardin - Cesta com morangos silvestres, 1761
 

   Com a Revolução Industrial nasceu um dos movimentos artísticos que mais recorreu à alimentação como temática, o Impressionismo. O Impressionismo teve como principais representantes Claude Monet e Pierre Auguste Renoir que transportaram para as suas telas cenas ao ar livre, como piqueniques, restaurantes e cafés, em telas caracterizadas por pinceladas vibrantes e coloridas. Paul Cézanne modernizou com o seu pincel as naturezas-mortas ao capturar os frutos com cores vigorosas, oferecendo, pois, à arte, um novo sentido de expressividade.

 

Van Gogh - Interior de um restaurante, 1887
 

   Omnipresente na História da Arte, a temática da alimentação foi desenvolvendo-se ao longo de movimentos, tendências e escolas artísticas. Cada época interpretou de uma forma diferente, segundo o contexto sócio-cultural da época. No Modernismo, o tema da alimentação foi influenciado pelas Grandes Guerras, originando telas vanguardistas como Picasso. Com a Arte Contemporânea nascem diversas correntes estéticas, como o Pós-Modernismo e a Pop Art, em que os alimentos tornaram-se base de ironia, como nas latas da sopa Campbell de Andy Warhol.

 

Jean Hélion - Les Pains, 1951
 

   Mais recentemente, a Arte Contemporânea apropriou-se da alimentação para criar obras efémeras, simbolizando tudo o que é perecível.

   Na verdade, os artistas contemporâneos procuram reabilitar a representação dos alimentos, enaltecendo a paixão e o prazer que o comer sempre causou no homem.

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Abr 12

A Festa de Babette

     Com o objectivo de mostrar a relação entre Cinema e Alimentação enquanto fonte histórica e de análise à sociedade, apresento parte da análise ao filme A Festa de Babette que realizei no âmbito do Mestrado em Alimentação – Fontes, Cultura e Sociedade, para a disciplina de Cinema.

 

     Cinema como memória colectiva

     Desde o início da História do Cinema, que se reflectiu sobre a imagem como expressão da realidade e da verdade. Segundo Boleslas Matuszewski, que trabalhou com os Irmãos Lumière, o Cinema não dá a História integral, mas o que ele nos fornece é incontestável e de uma verdade absoluta.   

     Assim, somos levados a atribuir ao Cinema o valor de verdade e ao filme a importância de documento histórico. É possível ao historiador identificar no filme elementos que o ajudam a compreender a sociedade para além das representações operadas pelos grupos dominantes. O filme fala sobre o tempo da sociedade produtora, sobre os valores da época, mas também revela como a sociedade que vê o filme olha para si mesma ou como olha os eventos do passado. O filme permite-nos reflectir sobre os valores que as sociedades transportam.

 

     Cinema e Alimentação

     Cinema e Alimentação são conceitos que vivem em uníssono, porque ambos são fruto da acção e cultura humana, com um mesmo propósito – viver sensações. Quer a experiência gastronómica, quer a cinematográfica, resultam em ricas experiências sinestésicas. Então, o que sentir quando ambas as experiências se unem? Oferecem-nos uma experiência ímpar, de cor, movimento, acção, desejo, aprendizagem, conhecimento e «degustação». Ambas são Arte e Cultura. Sobre cultura e alimento, Ernesto Veiga de Oliveira diz-nos que «é desnecessário acentuar a importância do alimento como factor primordial de cultura», visto que da alimentação, nasce a cultura. Ou seja, através da recolha do alimento e da sua preparação, o Homem foi evoluindo, pois foi a «partir dessas actividades, prolongando a função biológica, que surgiu o Homem como ser cultural». São duas realidades indissociáveis.

 

 

     A Festa de Babette

     A Festa de Babette, obra-prima do realizador dinamarquês Gabriel Axel e inspirado no livro de Karen Blixen - conhecida pelo pseudónimo Isak Dinesen, insere-se no rol de filmes que têm como cerne a comida, sendo mesmo considerada por Steve Zimmerman, o filme que deu início ao género dos filmes sobre alimentação. A Festa de Babette realizada em meados da década de oitenta, do século XX, transita em torno da preparação dos alimentos, da figura do cozinheiro ou do acto de sentar-se à mesa. A comida não é entendida apenas pelo seu carácter nutricional, mas fundamentalmente, inserida numa cultura, rodeada de sociabilidades e imbricadas na História. Ou seja, alimentar-se é um acto nutricional, comer é um acto social, pois constitui atitudes, ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações.

     Somos confrontados com um dos momentos de maior prazer do ser humano, o da comida. É no banquete de Babette que se revela a vida esquecida das personagens, quer no passado ou nos sonhos esquecidos. É no prazer do gosto, do cheiro dos pratos servidos, que quase sentimos o aroma espalhado pelos espectadores, que se descobre que a vida não é linear, que o quotidiano pode ser interrompido a qualquer momento, e revelar não só as obrigações sociais e religiosas de uma existência, como as surpresas do eu adormecido, dos sonhos do que se pretendeu ser e do que nos tornamos.

 

     Estrutura Narrativa (Sequências)

     Segundo Robert McKee, A Festa de Babette insere-se na categoria de «filme artístico».

     A primeira sequência do filme caracteriza-se pela apresentação das duas irmãs, Philippa e Martina, e pelas suas escolhas, de forma a permaneceram com o pai no serviço religioso da Igreja. Termina quando Achille Pappin regressa a Paris, deixando uma das irmãs por quem se apaixonara, Phillipa. A segunda sequência, inicia-se trinta e cinco anos mais tarde. O pastor já falecera e as duas irmãs envelheceram, contudo os ideais religiosos do pastor continuam vivos. Neste ponto surge Babette como empregada das irmãs, o momento em que a história, efectivamente, começa.
     Durante esta sequência vemos a continuidade do trabalho de Babette para as duas irmãs, correspondendo a um tempo real de 14 anos. Ao longo desse tempo, começam a surgir queixas dos membros da Igreja. O primeiro caos acontece quando Babette recebe uma carta de França a contar-lhe que ganhara 10 mil francos na Lotaria. Nesse momento, ao ver que Babette ficara rica, as duas irmãs sentiram medo da sua partida para França.

Babette oferece-se para confeccionar e preparar um jantar francês para os habitantes da aldeia em comemoração do centésimo aniversário do Pastor. Aquando dos preparativos de Babette para a refeição, um novo caos ocorre – o pesadelo de Martina. A irmã sonha que Babette possui poderes demoníacos e que o jantar será o resultado de bruxaria. Este momento vai definir a quarta sequência que apresenta a Festa, propriamente dita e que dá título ao filme.

     A última sequência do filme abre com o temor dos paroquianos perante a comida confeccionada por Babette. Estes combinaram não tecer qualquer comentário face à comida durante o jantar. Contudo, ao longo da degustação eles são atraídos pelo prazer que os alimentos proporcionam.

Consequência desse sentimento é a harmonia e a união dos laços entre Irmãos, anteriormente quebradas. Além disso, a quarta sequência termina com Babette a contar às irmãs que gastara todo o seu prémio na preparação do Jantar, que ela fora uma chef famosa em Paris e que permaneceria com as irmãs em vez de voltar a França.Com esta notícia, os corações de Martina e Phillipa acalmaram-se, terminando assim a história.

 

 

     Fotografia e Música

     As cenas fílmicas são de um profundo poder contemplativo para o qual a qualidade da Fotografia e da Música concorrem. O mundo das irmãs é pintado com uma paleta de tons cinzentos, pretos e branco. Elas vivem num mundo frio e prudente num amontoado de casas pequenas à beira-mar. A ferocidade do clima está sempre presente, com o céu carregado de nuvens, com a tempestade, com o vento a soprar. Essa austeridade é intensamente retratada na cena da preparação dos alimentos, onde as irmãs ensinam Babette, recém-chegada, a confeccionar a refeição tradicional, de peixe seco que deve ser demolhado e do pão de cerveja que se assemelha a umas papas.

     Em contraste, as cenas posteriores do filme, em que Babette, tendo gasto o dinheiro da lotaria nos ingredientes para a refeição, prepara e serve a festa, são de uma incrível sensualidade com cor e textura. O linho da toalha de mesa, decorada com castiçais de prata que reluzem. A comida em si é simplesmente uma maravilha – a codorniz dentro da cesta de massa-folhada, um pedaço de tartaruga bóia na sopa fumegante, a delicadeza da pastelaria, um bolo num ninho de frutas confitadas é regado com licor. No final, há uvas e figos suculentos e maduros que rebentam com a dentada.

     Gabriel Axel conseguiu criar visualmente uma refeição preparada por uma artista. Durante todo o filme somos acompanhados pelo silêncio, pontuado apenas pelo som natural das ondas do mar, do vento, do abrir e fechar das portas, do toque do papel, do tilintar das louças, dos sinos da Igreja, do chá, do vinho a escorrer para as chávenas e copos, dos passos.

     A música é introduzida de duas maneiras especiais: no canto dos hinos da Igreja que nos dão conhecimento dos anseios e crenças profundamente arraigadas da comunidade e no uso de um solo de piano e de um dedilhar de violino que entra em algumas cenas significativas como um sublinhado trémulo e comovente. Assim, acabamos por ser convidados a entrar na realidade dos próprios personagens, em que a nossa respiração se confunde com a deles.

 

 

     O Banquete do ponto de vista filosófico e social

     O banquete representava tudo aquilo contra o qual as irmãs Philippa e Martina haviam lutado durante a vida em nome do pai, ou seja, o prazer, a comensalidade, a sensualidade. O que Philippa e Martina mal sabiam é que a «orgia», no sentido atribuído por Maffesoli, constitui uma via alternativa à religião, à fusão cosmológica com o sagrado.

     Para Nei Lima, A Festa de Babette, representa uma outra via para atingir a pureza, o sagrado e/ou o divino: «À mesa, os dois mundos, o da sobriedade e o da sensualidade. Ou melhor, três: entre os dois, a gratidão, em forma de delícias sensuais que Babette oferecia às irmãs e aos seus convidados. O que Babette parecia querer dizer é que não é preciso recusar os prazeres corporais para que o espírito prossiga justo e correcto. Que esses prazeres podem ir além da simples dissipação dos sentidos para significar gratidão e generosidade. É inicialmente esse gesto (dito na forma de um banquete fausto) o que provoca o malogro das promessas que fizeram de se manterem puros, negando qualquer prazer que viesse do campo discursivo da comida».

     A partir do entendimento do «banquete» como um ritual é que atingimos o «Banquete» como mito no imaginário filosófico e religioso ocidental. Tal como o Banquete de Platão, a função do amor é a de criar a virtude nos homens por meio da beleza. A declaração de Babette, no final do filme, logo após as irmãs questionarem-na quanto ao gasto de todo o prémio da lotaria confirma este juízo. Afinal, Babette não se encontrava mais pobre ou mais rica do que antes, na verdade, havia resgatado parte do amor perdido anos atrás com a arte que Deus lhe dera de fazer magia através da arte gastronómica. Por outras palavras, o banquete é uma declaração estética de amor à vida, à sociabilidade, à sensualidade, à comensalidade, enfim, à comunhão dos homens.

 

 

     O Banquete como Fábula da Cozinha Francesa

     A apresentação do jantar é revelada em cada pormenor. Babette prepara os animais, coloca a mesa, cozinha, peneira, salteia, faz bolos, emprata, corta os queijos, decora.

     O serviço de mesa é à francesa, onde os pratos são servidos um de cada vez. De início, a sopa de tartaruga, acompanhada por um Amontillado, vinho Jerez de cor âmbar, seco e fortificado, de origem espanhola. As entradas foram concluídas com o Blinis Demidoff, acompanhado de um Champagne  Veuve Cliquot de 1860. Dos pratos principais, o destaque vai para o Cailles en sarcophage, ou seja, codornizes assadas no forno, em caixa de massa folhada (vol-au-vent).

     Depois dos pratos principais, os queijos; em seguida, as sobremesas doces (kuglehopf) e as frutas (ananás, uvas, figos, papaias). Após o café, um Cognac superior, un fine champagne. A prima donna do jantar foi o Champagne, mas um vinho tinto servido também mereceu referência especial: um Clos Vougeot 1846. Este vinho é um Bourgogne, originário das vinhas da Côte de Nuits, bastante apreciado na época, e marcava presença nas cartas de vinhos de restaurantes famosos em Paris.

 

 

     Conclusão

     Existem três conceitos muito importantes: a arte, os artistas e a sociedade. Encontramos a arte da música e da gastronomia; os artistas em Babette, Pappin e Philippa; a sociedade no General e no Grupo de discípulos. O General, marca da modernidade e de abertura ao mundo, serve como ponte na sociabilização do gosto e na abertura aos sabores e experiências ao grupo de discípulos.

     Um dos motivos centrais da narrativa foca a discussão sobre a arte na sua relação com o criador e o público. A Gastronomia apresenta-se como arte interactiva, não só enquanto combinação de sentidos (gosto, olfacto, audição, vista e tacto), mas porque nela os actos de criar, fazer e fruir estão intimamente relacionados.

     O Jantar de Babette permitiu-lhe oferecer aos outros o que de melhor ela tinha para dar e como resultado surpreendente conseguiu oferecer a Felicidade e a Renovação.

     Além da moralidade presente ao longo do filme, onde a comida surge como metáfora para a apresentar, podemos sugerir que a escritora do romance que deu origem ao filme, Karen Blixen, através de um erro histórico procurou chamar a atenção para as poucas mulheres ou, mesmo inexistentes, na Chefia das cozinhas no século XIX ou mesmo nos nossos contemporâneos. Na época temporal da narrativa, o Chef do Café Anglais era Adolphe Dugléré e este não permitia de forma alguma a permanência de mulheres na sua Cozinha.

 

     Para finalizar, fica uma das frases finais de Babette - «Um grande grito sai da alma do artista, deêm-me a oportunidade de fazer o meu melhor».

 

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FONTE

Filme A Festa de Babette de Gabriel Axel, 1987

 

BIBLIOGRAFIA

ANTUNES DOS SANTOS, Carlos Roberto - A Alimentação e o seu lugar na História: os tempos da memória gustativa. História: Questões & Debates. Curitiba: Editora UFPR, nº 40, 2005

AUMONT, Jacques; Marie, Michel - A análise do Filme. edições Texto e Grafia, 2010

FERGUSON, Priscilla Parkhurst Babette’s Feast, a Fable for Culinary France. In FERGUSON, Priscilla Parkhurst – Accounting for Taste- The triumph of French Cuisine. Chicago:
University of Chicago Press, 2006.

LIMA, Nei Clara de – A festa de Babette: consagração do corpo e embriaguês da alma. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, 1996. Vol. 2, nº 4

McKEE, Robert – Story, Substance, Structure, Style, and the Principles of Screenwriting. New York: Regan Books, 1997.

ZIMMERMAN, Steve – Food in the movies. North Carolina: McFarland, 2010. 2ª ed

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World Bread Day 2012

World Bread Day 2012 - 7th edition! Bake loaf of bread on October 16 and blog about it!