17
Abr 12

Sabores da Páscoa

A doçura e o mundo mágico do simbolismo marcaram presença no Casino Figueira durante os «Sabores da Páscoa».
 

 

Produtos da nossa doçaria beirã, como o Bolo de Ançã, as Nevadas de Penacova, os Pastéis de Tentúgal, os Ovos Moles, as Sardinhas Doces de
Trancoso, o Folar de Vale de Ílhavo, estiveram presentes no Casino Figueira, oferecendo a oportunidade de os conhecermos melhor, de os degustar, de aprender os seus métodos de confecção, os segredos que estão por trás de cada receita, os quais, por vezes, passam apenas pela temperatura das mãos que a confecciona como acontece no amassar o Bolo de Ançã.

 

A mostra da doçaria esteve a cargo das respectivas Confrarias, a saber, do Bolo de Ançã, da Lampreia, de Tentúgal, dos Ovos Moles, de Trancoso e
das Sainhas.

 

A Gastronomia de uma região, de um país é um tesouro valioso tal como a arte, a etnografia, a língua e a literatura. Faz todo o sentido colocar em relevo esta expressão cultural, enriquecedora da nossa tradição. É uma maneira de promover um património imaterial original, que importa preservar e reabilitar.

 

Preservar receitas é preservar tradições e culturas e, assinale-se, o facto de as Confrarias terem um papel fundamental nessas acções preventivas e
de promoção, bem como cada um de nós.

 

Na Sexta-Feira Santa decorreu o show-cooking sobre a Tradição dos Folares da Páscoa apresentado por mim e pela minha amiga, também pasteleira,
Edite Penas. De mesa enfarinhada e mãos na massa, viajamos pelo mundo rico do folar em Portugal, percorrendo os caminhos e sabores do folar da beira litoral, característico pelos ovos, o folar transmontano, de Vouzela, do Algarve, de Castelo de Vide e do folar de Azeite.  

Foi um privilégio a oportunidade de participar neste evento, onde partilhamos  o saber fazer de cada folar, tradição e simbologia. E, no final, a degustação e harmonização entre todos os participantes.

 

Agradeço à Grã-Mestre Chanceler da Confraria dos Pastéis de Tentúgal, Olga Cavaleiro, por ter acreditado desde o início que seriamos capazes de valorizar a nossa Arte e pelo seu apoio incondicional. Agradeço, igualmente ao Casino Figueira, porque também desde o primeiro momento acreditou e nos apoiou, incansavelmente.  

 

Partilho agora as fotos do show-cooking, À Descoberta do Folar

 

 

 
 
 
 
 
 
publicado por Graellsia às 01:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Abr 12

Simbologia na Páscoa


    Ernesto Veiga de Oliveira dedica um artigo aos Folares e Ovos da Páscoa em Portugal na sua obra Festividades Cíclicas em Portugal. Seguirei, pois, as palavras do autor quase à letra. Após os meses de Inverno e a longa privação da Quaresma, a Páscoa dá início a uma intensa actividade em termos de preparações culinárias e de intercâmbio. A Páscoa é, pois, uma época característica de presentes cerimoniais, nomeadamente de natureza alimentar, os «folares». A palavra, porém, numa acepção restrita e mais precisa, designa um certo tipo de bola, específica do ciclo pascal.

 

    Como bola de Páscoa, existem, em Portugal, diferentes espécies de «folares»; o mais corrente e difundido é o de bolo em massa seca, doce, e ligada, feito com farinha de trigo, ovos, leite, azeite, banha, açúcar e fermento, e condimentado com canela e ervas aromáticas, geralmente erva-doce, – uma espécie de regueifa ou fogaça -, encimado, conforme o seu tamanho, por um ou vários ovos cozidos inteiros e em certos lugares tingidos, meio incrustados e visíveis sob as tiras de massa que os recobrem. Este tipo de «folares» constitui a regra quase sem excepção em todo o Sul do País, no Algarve e no Alentejo, e é corrente na Estremadura e nos arredores de Lisboa; no Centro do País, é ainda mais frequente nas Beiras, e encontra-se também na região do Douro. Contudo, no Nordeste montanhoso e no planalto de Trás-os-Montes, o «folar» é diferente. A massa leva farinha, ovos, leite, manteiga e azeite e encerra bocados de carne de toda a espécie – vitela, frango, coelho e, sobretudo, porco, presunto e rodelas de salpicão – cozidos dentro da massa.

 

    Conforme as regiões e localidades, os «folares» doces podem apresentar algumas variações e particularidades, no que respeita às suas formas; no Sul, eles são redondos, espessos e maciços, e comem-se no Domingo de Páscoa, ou em certos sítios, na Sexta-feira Santa, na Segunda-feira a seguir à Páscoa, ou mesmo, no final do Ciclo, em Domingo de Pascoela; nos arredores de Lisboa, eles têm uma forma ovalada; em Aveiro, a de um coração; etc. Em certas áreas do Alentejo, porém, como por exemplo na região de Elvas, os «folares» tomam aspectos zoomórficos, para os afilhados há os lagartos, borregos; para as raparigas, as pintainhas, pombas, bezerrinhas, borreguinhas. Em Castelo de Vide os namorados trocam entre si folares em forma de coração. E há os folares que simbolizam a fecundidade da mulher: o ninho, a galinha com os pintainhos em seu redor, a boneca grávida. O ovo está sempre presente – na boca do lagarto, no rabo da galinha, na barriga da boneca.

 

    O lagarto é símbolo do Sol e da Luz, aquele que busca o conhecimento, Deus, a outra vida.

 

    Ernesto Veiga de Oliveira refere-se ainda às regras determinadas em relação aos presentes cerimoniais da Páscoa, os «Folares». Assim, encontramos várias categorias de «Folares», com correspondência a situações sociais independentes,
tais como:

- Os presentes obrigatórios que os padrinhos dão na Páscoa aos seus afilhados;

- O óbulo que se oferece ao padre, em casa, quando da visita pascal, ou «compasso»;

- As ofertas determinadas que têm lugar na Páscoa entre pessoas ligadas por laços de parentesco genérico ou cerimonial.

 

    Pode dizer-se que as celebrações alimentares da Páscoa em Portugal representam a consagração do ovo «símbolo da fecundidade e abundância», nomeadamente no que se refere aos folares do Sul e Centro do País, onde surge incrustado inteiro, como elemento fundamental.

 

    Alguns historiadores sugerem também que muitos dos símbolos ligados à Páscoa, designadamente os ovos coloridos, bem como o coelhinho, são reminiscências da Festa da Primavera em honra de Eostre, a deusa da fertilidade, do Renascimento, da Ressureição, da Luz crescente da Primavera, na mitologia anglo-saxónica, cujo nome parece significar «Deusa da Aurora», festividades essas que foram assimiladas a Pessach.

    Pessach, (do hebraico, ou seja, passagem) também conhecida como Páscoa Judaica, associa-se, segundo o êxodo, à libertação do povo de Israel do Egipto.

 

    Regressando à Páscoa de origem germânica, referimos ainda que, em alemão, ainda hoje se designa a Páscoa por «Ostern» e em inglês «Easter».

Por essas filiações, há quem relacione a divindade Eostre com a Deusa grega Eos, também ela deusa do Amanhecer e ainda com a fenícia Astarte ou a babilónica Ishtar, pelas similitudes no que respeita aos rituais de fertilidade e às festividades do Equinócio da Primavera, sendo comum a Persas,
Romanos, Judeus e Arménios o hábito de trocar presentes de ovos coloridos.

 

    O Cristianismo acabou por absorver esta tradição através da Páscoa e, também por isso mesmo, o ovo aparece aqui ligado à ideia de renovação periódica da natureza. Remete assim ao mesmo mito da criação cíclica, mantendo-se a crença de que comer ovos no Domingo de Páscoa traz saúde e sorte durante todo o resto do ano, funcionando como algo de apotropaico contra as enfermidades.

 

            ... Votos de Páscoa Feliz, Saúde, Sorte e Alegre Renovação!

 

 

 

Fontes

BARATA, Filomena – Ludi Cereales – os ovos da Páscoa. In Portugal Romano – Revista de Arqueologia Romana. Abril, 2012

BARBOFF, Mouette – A Tradição do Pão em Portugal. Edição do Clube do Coleccionador dos Correios, 2011

OLIVEIRA, Ernesto Veiga de – Festividades Cíclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984. 1ª ed.

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World Bread Day 2012 - 7th edition! Bake loaf of bread on October 16 and blog about it!