10
Ago 11

' O Pão tem um poder mágico: espalha o amor '

Wilhelm von Kaulbach (1805-1874) - A Carlota de Werther de Goethe

 

« (…) Atravessei o pátio para ir àquela linda casa; subi a escada e, assim que entrei na sala, vi o espectáculo mais tocante da minha vida. Seis crianças, que a mais velha tem onze anos e a mais pequenina dois, à roda de uma senhora muito moça, de estatura mediana, mas elegante e vestida com um simples vestido branco guarnecido de laços de fita de cor-de-rosa. Estava repartindo-lhes fatias de pão de trigo com manteiga, segundo a idade e o apetite de cada um! Ela fazia a distribuição com tanta graça! Enquanto os pequeninos lhe diziam com um tom de inocência: Muito obrigado, estendendo-lhe as mãozinhas mesmo antes de receberem as suas fatias. Enfim muito contentes com a merenda (…)»

 

Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe, 1774

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24
Jun 11

Literatura e gastronomia

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

 

« Foi debaixo do telheiro onde se guardavam as carroças que puseram a mesa. Nela havia quatro lombos de vaca, seis frangos de fricassé, vitela estufada, três pernas de carneiro e, ao centro, um bonito leitão assado, rodeado por quatro grandes chouriços com azedas. Aos cantos erguiam-se as garrafas de aguardente. A sidra doce engarrafada fazia sair a sua espuma espessa em torno das rolhas e todos os copos tinham sido previamente cheios de vinho até às bordas. Grandes taças de leite-creme, que estremeciam ao mínimo toque na mesa, apresentavam, na sua superfície lisa, o monograma dos noivos, desenhado em arabescos de missanga de açúcar. Tinha-se mandado vir um pasteleiro de Yvetot para fazer as tortas e os nogados. Por ser a sua estreia na região, apurara-se no trabalho; e ele próprio trouxe para a mesa um bolo armado que provocou estrondosos aplausos. A base, em primeiro lugar, era composta por um quadrado de cartão azul, representando um templo com pórticos, colunas e estatuetas em gesso em toda a volta, dentro de nichos constelados de estrelas de papel dourado; a seguir vinha no segundo andar, uma torre de pão-de-ló, rodeada de pequenas fortificações de angélica, amêndoas, passas de uva, gomos de laranja; e, por fim, sobre a plataforma superior, que representava um prado verde onde se viam rochas com lagos de geleia e barcos feitos com cascas de avelãs, havia um pequeno Cupido sentado num baloiço de chocolate, cujos postes terminavam, no cimo, à maneira de esferas, em dois botões de rosa naturais.

Comeu-se até à noite. Quando se cansavam demasiado de estar sentados, iam passear pelos pátios ou jogar uma partida de malha no celeiro; depois voltavam à mesa. Para o fim, alguns adormeceram ali mesmo e ressonavam. Mas, quando chegou o café, todos se reanimaram; (…)»

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10
Jun 11

Literatura e Gastronomia

Os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis

 

Abria-se (…) a porta da cozinha; vinha de lá um grande rumor de vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clarão avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chama.  (…) Era uma cozinha aldeã, vasta, desafogada; imenso lar, compridos preguiceiros ao longo das paredes, no alto prateleiros pejados de louça nacional, de panelas e alguidades; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada pá de presunto; o amplo forno vomitava lavaredas pela boca escancarada e a cada instante engolia as novas e enormes doses de lenha que lhe ministravam; na masseira fumegava já a farinha ainda não levedada para a fornada da semana, e nela os braços valentes e roliços de duas frescas moças do campo enterravam-se até aos cotovelos; a um sinal destas, outras traziam da lareira grandes panelas de água fervendo, com que acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma peneirava a um canto a farinha para o bolo, outro arrumava o cinzeiro do forno com a vara meia carbonizada; limpava esta a pá grande para a introdução das boroas, e aquela empunhava a pequena pá de ferro de rapar a masseira. No meio desta legião feminina assim atarefada, a patroa da casa, que, como Calipso sobre as ninfas que a serviam, ou, segundo a comparação clássica, como o elegante cipreste sobre as vinhas rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de cada uma e distribuía as tarefas com método e inteligência.

Era esta a tia Ana do Vedor (…). Era ela, enfarinhada, arregaçada, afogueada, com os cabelos escondidos por baixo do lenço vermelho que atava sobre o ocipital, com a voz potente, o olhar fino e os movimentos fáceis, apesar dos cinquenta anos já contados.

À sua vista perspicaz não escapou por muito tempo a presença de Maurício; e logo, que o viu, correu para ele com os braços abertos, exclamando:

- Ai meu rico filho!

- Cautela, cautela, Ana, olha que me enfarinhas! – advertiu Maurício, tentando fugir-lhe.

- E que tem que te enfarinhe? Olh’agora! A farinha é pão, e o pão vem de Deus.

 

(…)

 

Aos preparativos que estou vendo – observou Maurício – há grande fornada para hoje.

- É como vês. E não minguam bocas que a comam. O Senhor nos não falte com estas côdeas.

- E o bolo que não esqueça.

- Eram bons tempos aqueles em que vocês ambos o comiam como se fosse maná! Esquecer! Olh’agora! Não há-de esquecer, não, se Deus quiser, que não falte por aí gente necessitada com quem se reparta. Vá, vá, raparigada! Não se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o serviço não espera! Olh’agora! Deita-me o centeio naquela massa, pasmada, avia-te!

 

(…)

 

- Ó raparigas, então esse pão ainda não está amassado?

E, não lhe sofrendo a impaciência de ânimo a inacção, aproximou-se da masseira e, afastando as moças que lhe cederam o lugar com deferência, remexeu, com o vigor de seus desenvolvidos músculos, a massa, que, sob tao poderoso motor, cedo adquiriu a consistência precisa.

Depois amontoou-a, alisou-a, traçou-lhe em cima com a mão uma cruz e murmurou:

          S. Vicente te acrescente

          S. Mamede te leveda

Cobriu-a com a baeta, e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente:

-Ora aí o têm; agora olham-me por esse forno, que são horas.  

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World Bread Day 2012

World Bread Day 2012 - 7th edition! Bake loaf of bread on October 16 and blog about it!